FAQ - Perguntas Frequentes

Traição - Que é para ti?

Os meandros da 
 
T R A I Ç Ã O
(Leça, 23.12.2013)
 
 
Fiquei depois a pensar na pergunta dela e no que tentei dizer-lhe, como resposta. No 
 
silêncio da situação, eu estava numa de “paciente”, aproveitando de suas mãos de 
 
fada na arte das terapias alternativas, de sabor oriental. Quando menos esperava, sai 
 
esta pergunta: - Para si, o que é a traição? Dei alguns significados inócuos, bebidos 
 
nos dicionários e na vida do dia a dia. Mas ela insiste: - Para si, de sua experiência, o 
 
que é uma traição ? Aí eu tive mais dificuldade em traduzir-me em tantas traições que 
 
já experimentei. Umas reais e outras imaginárias. Traições para com os outros e para 
 
comigo próprio. E em tantas outras de que já me vi acusado - muitas delas sem que 
 
eu tenha um mínimo de consciência disso. Porque também os outros sofrem como eu 
 
de traições imaginárias... 
 
Porque “fiquei depois a pensar”, fui ao dicionário e respigo: 1. Crime de quem deserta 
 
para o inimigo ou passa informações para outro país. 2. Infidelidade conjugal. 
 
3. Deslealdade para com um amigo ou pessoa com quem se tem algum laço de 
 
solidariedade ou outro tipo de compromisso. 4. Corrupção do pensamento de um 
 
autor. 5. Emboscada, cilada. – à má fé; inesperadamente. E termina com uma 
 
referência à origem da palavra, do latim “traditione” –“entrega”. E passa-me pela 
 
cabeça a célebre “traição de Judas” que, sendo discípulo de Jesus de Nazaré e 
 
usando um beijo “truqueado”, o “entregou” nas mãos do inimigo. 
 
Porque este meu “ficar a pensar” está a fazer-me luz sobre os meandros da traição 
 
(de que, afinal, também sou abrilhantado protagonista!), penso no como seria útil para 
 
todos nós se, de vez em quando, pudéssemos parar-nos a reflectir sobre as nossas 
 
traições. As que, inesperada e dolorosamente caiem sobre nós e as que, muitas 
 
vezes inconscientemente, emitimos e que vão fazer sofrer até aqueles a quem mais 
 
amamos. E, aqui, alargo a minha visão sobre aquele desafio de Leo Buscáglia de que 
 
estou sempre e falar e que vos deixo aqui em rodapé1
 
Falar sobre as nossas convicções pode ajudar-nos a ver que muitas delas estão 
 
viciadas. Talvez inconscientemente, mas viciadas - porque fora do real. Falar sobre 
 
os nossos sentimentos honestos arruma-nos por dentro e facilita as relações 
 
interpessoais construtivas.
 
Este diálogo com o outro, na sequência deste trabalho de arrumação sobre o meu 
 
interior, pacifica-me muito e desperta em mim o gosto de irradiar para os outros este 
 
meu saboroso sentir-me vestido de festa frente à vida e frente aos outros. 
 
.
 
 Xi terno do Abel 
 
 
 
1 O que há de mais urgente a fazer na vida humana (aquilo que mais nos torna humanos) é 
 
aprender a: a) dizer as nossas convicções; b) dizer os nossos sentimentos honestos; c) viver 
 
com as consequências... // Esta é a primeira exigência do amor. // Só que ISSO torna-nos 
 
VULNERÁVEIS aos olhos das outras pessoas que podem achar-nos ridículos. // Mas a nossa 
 
vulnerabilidade é a ÚNICA COISA verdadeiramente nossa que podemos oferecer aos outros”.

Como ajudar quem não quer ajuda?

Acordei cedo. Feliz por estar vivo. A sonhar ir mais além... Sonhar “que 
 
mais” poderei eu fazer para ajudá-la a sair daquilo. É que ela “acusou-
me” de que tenho “pouca paciência”. Que, quando mais precisa de mim, 
 
sempre me encontra “frio e distante”. “Sem jeito nenhum para lidar com o 
 
negativo” dela... 
 
E é verdade. Porque acho a vida um DOM MARAVILHOSO que há que 
 
sugar até ao tutano, custa-me a entender que alguém passe a vida a 
 
gemer. Numa de vitimismo inveterado, a botar fora a única chance que 
 
lhe estar a ser dada para “colher o seu próprio cacho de oportunidades 
 
na vinha da aventura” – como diz o poeta. Assim, quando sobre mim cai 
 
a choraminguice dela, eu não sei mesmo o que fazer. Porque, se digo que 
 
“há que reagir, sair dessa, aprender a olhar noutras direções” (o discurso 
 
dos cotas...), logo ela me diz que “se sente avaliada”... Que “não precisa de 
 
um psicólogo, nem de um técnico a vomitar manuais de cultura”.... Que 
 
“precisa é de um amigo que lhe saiba dizer uma palavra que a pacifique”. 
 
(blablabla...). Mas, de tanto repetir-se este vai-vém de expiatório “não me 
 
entende” recíproco, sinto-me cair no vazio da incomunicação...
 
Então, hoje, porque acordei cedo. Feliz por estar vivo. Em dinâmica de 
 
mudança (mutante, por natureza). Quero parar-me a ver se aprendo como 
 
lidar com isto. Sei de muitos porquês se vive assim. Sei de muitas técnicas 
 
que podem ajudar a sair dessa. Porque, se “não somos responsáveis por 
 
aquilo que fizeram de nós”, uma vez crescidinhos, já não podemos viver 
 
nem morrer sem sermos “responsáveis por aquilo que fizermos daquilo 
 
que fizeram de nós”... E sei que ninguém nasceu para viver a gemer a vida 
 
inteira. E sei e sei e sei. Mas não sei como ESTAR COM ela, quando me diz 
 
que “precisa de desabafar” e acho que o que ela quer é um “salvador”1
 
que a tire dali, para, pouco depois, logo lá voltar... Porque o sair de uma 
 
história dolorosa, da responsabilidade de outros, sempre pede muito 
 
trabalho e dor - já da responsabilidade de quem quer mesmo sair daí...
 
 O “salvador dramático” é uma figura da Análise Transacional para significar esse tipo de “relação 
 
 
 
1-doentia em que, na reciprocidade do “lamber as feridas um do outro”, os dois (salvador e vítima) se 
 
afundam no “perder tempo e energias” – alimento de MAIS VIDA, para que estamos talhados por 
 
nascimento...