Um TESTEMUNHO gozoso...
04-08-2014 23:04
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O “voluntariado” pode fazer milagres. Ou melhor, com a ajuda de uma boa experiência de voluntariado, qualquer pessoa pode fazer(-se) milagres. Porque milagre não é conseguir que Deus faça a vontade de uma pessoa... Milagre é conseguir uma pessoa que se faça “vontade de Deus”...
A Nita sempre foi para mim um desafio a pensar e repensar a vida. Inteligente e sensível, artista de alma e coração, exerceu muitos anos como “educadora visual”. E foi fazendo coisas. Entre elas muitas exposições muito diversificadas. Ainda como profissional, quis a “sorte” (um dos muitos nomes populares de Deus...) que fosse parar a uma das muitas unidades da APPACDM – Associação de Pais e Professores de Amigos do Cidadão Deficiente Mental.
Para entendermos bem estes “fenómenos humanos”, convirá dizer que a Nita nasceu em terras onde a torre de uma igreja é mais rara do que a sombra de uma árvore. Quero dizer: A Nita não sofreu “moldagem” religiosa de atavismos confessionais. Entrou livre na vida para poder observá-la, seleccioná-la e saboreá-la. Em liberdade intelectual, emocional, social e, sobretudo, espiritual. Tornou-se assim uma pessoa que vale a pena.
Lembro-me do estremeção que diz ter experimentado quando se viu colocada pela primeira vez naAPPACDM. Em vez de “chorar a sorte”, tentou libertar-se do que trazia consigo em termos de preconceitos e ideias feitas sobre o, para ela ainda desconhecido, “Cidadão Deficiente Mental”. Parece que foi um trabalho duro, mas hoje sente-se orgulhosa de o ter feito.
Entretendo, porque os anos não perdoam, a Nita reformou-se. E começou a sentir o bichinho do “voluntariado” a mordê-la por dentro. Quer saber do Telefone da Esperança em Lisboa e, por ainda não há, oferece-se a uma unidade da APPACDM em Cascais, como voluntária, dois dias por semana. Manda-nos fotos e fala disso assim: - Estes são os meus Meninos de mais de 50 anos cujas funções estão limitadas à mais reduzida capacidade de fazer. São muito afectivos e obedientes. Adoram beijos e massagens e alguns conseguem manter uma espécie de conversa lógica desfazada do mundo.
Não me contive e pedi que nos falasse de si. De como foi parar ali e como se sente nesse mundo tão especial. A resposta chegou. Ei-la:
- Há cerca de trinta anos, tinha feito a experiência de ensino com esta Associação. Foi quase doloroso .enfrentar tanta incapacidade. Os anos passados reparei que a minha apreciação do humano a partir dali, tinha tomado direcções inesperadas para mim. Avaliava as atitudes e comportamentos como se todos fossemos deficientes e muito necessitados de compreensão. As nossas deficiências, as minhas deficiências, passaram pelo enorme crivo da mágoa. E procurei por alguma resposta, que não encontrei. O remédio afinal está na proximidade afectiva, como única possibilidade viável. E assim, passados estes anos, reaproximei-me e não sinto mágoa por eles, pois os vejo com a sua "normalidade" possível. Aprendi muito. E estou aprendendo de novo, pois tenho outra atitude emocional. É muito fácil gostar deles. E com a minha formação de pintora, admiro as suas formas primárias que nos surpreendem e apontam percursos do cérebro humano estético, ou expressivo, muito criativas. `
Seriam estas formas as do início do género humano, segundo os psicólogos. E encontro-me então como que num berçário da raça humana. Tão pacífica, emotiva e dependente.